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Da transição energética à política industrial verde e sustentável

As mudanças climáticas são, atualmente, um dos desafios mais urgentes enfrentados pela humanidade. A iminência de tragédias causadas pelo aquecimento global nunca esteve tão presente, a exemplo dos últimos meses vividos, considerados os mais quentes da história da Terra, ocasionando, inclusive, uma seca sem precedentes na Amazônia, que está impactando na navegabilidade dos rios, no escoamento de mercadorias e, consequentemente, no abastecimento da população e uma tempestade no começo de novembro que foi capaz de deixar milhões de paulistas por dias sem energia em razão de impactos severos na rede de distribuição.


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Diante de episódios como esse, tornando-se cada vez mais frequentes, os diferentes setores da economia precisam assumir duas missões:


A primeira missão é garantir esforços concretos para descarbonizar os seus processos: segundo recente estudo da PSR, no mundo, o setor de energia responde por mais de 70% das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), enquanto no Brasil esse número cai para 17%, o que nos mostra o quanto a nossa matriz energética já é majoritariamente limpa e temos uma grande oportunidade nas mãos de seguir na liderança mundial neste tema.


Abundante em recursos energéticos, o País desponta neste cenário e se diferencia em sua contribuição para a transição energética, isto é, a passagem de uma matriz energética focada em combustíveis fósseis para uma matriz energética com baixa ou zero emissão de carbono, baseada em fontes renováveis. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as fontes de energia renovável respondem por quase 84% da matriz elétrica brasileira em operação. Ainda, atualmente, estão em construção empreendimentos que garantirão a expansão de sua capacidade instalada, sendo a maioria dedicada a plantas para geração de energia renovável, o que demonstra franca expansão dessas fontes.


Também, de acordo com as projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) no Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2031, as fontes solar e eólica responderão por 25% da capacidade instalada em 2031 e, em conjunto com a fonte hidráulica, representarão 70% de capacidade instalada no Brasil.


O aumento da capacidade de geração de energia renovável é uma excelente notícia, mas fato é que, sem transmissão, não haverá a transição. Isso porque um dos grandes desafios do setor para ampliar a integração das novas fontes renováveis no sistema interligado nacional e levar a energia limpa até os grandes centros de consumo passa justamente pela construção de novas linhas de transmissão. Tal contexto amplia as possibilidades de investimento e desenvolvimento de novas tecnologias para adequar a infraestrutura elétrica, mantendo a robustez e a resiliência que as redes exigem.


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Portanto, não basta apenas ampliar a integração de fontes renováveis, mas garantir a confiabilidade do sistema diante da sua intermitência. Há uma mudança operacional da rede de transmissão, que pressupõe – no lugar de uma rede linear convencional – uma infraestrutura neural que se adeque à flexibilidade operativa, isto é, à capacidade de lidar com as variações de oferta e demanda acompanhada pela geração distribuída e, assim, de novas tecnologias para assegurar a sua confiabilidade, como sistemas de armazenamento.


Um exemplo de inovação viável para esse contexto de transição energética é o armazenamento de energia em baterias. Inclusive, uma recente solução em larga escala já é realidade no setor de transmissão brasileiro: uma iniciativa pioneira, instalada na subestação Registro, SP, com a finalidade de atuar em picos de consumo do Litoral Sul do Estado de São Paulo, durante o verão, a fim de evitar interrupções no fornecimento de energia e ampliar a integração de fontes renováveis.


As baterias representam uma tecnologia versátil que contribui nesse momento de transição, uma vez que dispõe de diversas aplicações, como o alívio de pontos de maior carregamento do sistema elétrico ou a compensação da variabilidade de geração de energia eólica e solar, o que possibilita uma maior integração das fontes renováveis ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e, por consequência, reduz o consumo de diesel ao evitar o uso de geradores e a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE).


Como podemos ver, a transição energética no Brasil já é fato, e o avanço das fontes limpas no País pode posicionar o Brasil num cenário de grande vantagem competitiva inclusive para o fornecimento a outros países. Ademais, a transição energética assume um importante papel em uma política industrial (indústria verde) e de mobilidade sustentável, que permitirá com que o País possa avançar, eletrificando soluções produtivas e meios de transporte. Assim, a energia elétrica competitiva e verde pode e deve ser a espinha dorsal para o desenvolvimento do Brasil, atendendo às necessidades da sociedade.


Segundo artigo do World Economic Forum, para limitar o aquecimento global seria importante que a participação da energia elétrica no consumo de energia global passasse dos atuais 20% para algo em torno de 50% a 70%. Isso porque os outros tipos de energia, como a térmica, estão entre as maiores responsáveis pela emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE).


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Temos, então, uma oportunidade com um País com vantagens na matriz energética para desenvolver um novo ciclo de industrialização, que permitiria uma posição de destaque no abastecimento de produtos sustentáveis demandados pelo mundo.


Temos ainda uma segunda missão: enquanto não avançamos na agenda global de descarbonização, o setor tem uma responsabilidade ainda maior de garantir a resiliência e conseguir operar essa infraestrutura tão essencial neste ambiente de eventos climáticos extremos.


No cenário atual será fundamental que os vários agentes estejam preparados e que recebam apoio dos órgãos de controle e regulação na luta contra os efeitos climáticos adversos extremos. Vivemos e viveremos momentos de vários eventos de força maior em que resolver as eventuais emergências em conjunto, como setor, será fundamental.


Este será um cenário em que a confiabilidade e a confiança nas empresas que operam os sistemas e o conhecem devem ser valorizadas e reforçadas.


Temos uma oportunidade gigante, no entanto, o caminho para aproveitá-la não é simples, ainda que tenhamos bons elementos para trilhá-lo. O primeiro passo, que é o crescimento da geração de energia renovável, já está bem adiantado, faltando a construção da infraestrutura necessária para trazer essa energia elétrica renovável para o centro consumidor e assegurar uma entrega de energia confiável, o que está acontecendo a partir dos leilões de transmissão organizados pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela ANEEL, além do avanço de novas tecnologias, como o projeto de armazenamento de energia em Registro (SP), já citado neste artigo.


O segundo passo é desenvolver a capacidade de compreender que as mudanças climáticas já nos trazem efeitos extremos e nos adaptarmos e aprender a tratá-los ainda é um processo em desenvolvimento – neste ponto temos urgência, pois o clima não aguarda.


Concluo reforçando que é fundamental que, compreendendo essa visão de médio e longo prazos, comecemos a trabalhar em uma política industrial alinhada à demanda do mercado, além de desenvolver uma maneira de garantir a atração dos investimentos necessários. Para se ter uma ideia, a terceira edição do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) denominado de Novo PAC, lançado pelo Governo Federal em agosto deste ano, traz uma previsão de mais de R$ 540 bilhões de aportes somente no setor elétrico, com foco em iniciativas de transição e segurança energética. Mas, para que os investimentos se materializem, será necessária uma regulação forte e estável que, somada a ferramentas financeiras, gerará confiança nos investidores nacionais e internacionais.


E, em paralelo, de modo urgente, que encontremos a maneira de operar nosso Sistema Integrado de fornecimento de energia, considerando os câmbios que já se manifestam de modo absolutamente extremo.


Assim, nosso País ganhará mais, conforme avançarmos neste plano que pode nos levar à liderança energética sustentável global, sem deixar de lado a capacidade de adaptação ao momento de hoje que pode afetar toda a população brasileira.


Por Rui Chammas, diretor-presidente da ISA CTEEP.

Fonte e imagens: InforChannel

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