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Desindustrialização: Indústria de Transformação precisa investir R$ 456 bilhões por ano para recuperar produtividade

O ambiente econômico brasileiro tem impactado negativamente os investimentos na indústria de transformação. A parcela do PIB do setor destinada ao aumento da capacidade produtiva vem sendo reduzida ao longo dos anos e, agora, sequer cobre a depreciação dos ativos. Estudo da Fiesp mostra que os investimentos atuais estão em cerca de 2,6% do PIB ao ano quando seria necessário, pelo menos, um nível de 2,7% ao ano apenas para cobrir os gastos com depreciação.


Rodrigo Portes

O estudo estimou também a necessidade de investimentos da indústria de transformação – é a primeira vez que este dado é calculado. Para retomar o patamar dos anos 1970, quando a produtividade nacional era equivalente a 55% da americana (valor de referência para a economia brasileira), o país precisaria investir no setor em torno de 4,6% do PIB anualmente, por um período entre sete e dez anos. Ou seja, R$ 456 bilhões por ano para suprir os gargalos do complexo industrial e retomar a produtividade perdida, que hoje é de cerca de 20% da americana.


O estudo foi feito com base em informações da Pesquisa Industrial Anual (PIA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados mostram que os investimentos, isto é, a compra de máquinas, equipamentos, terrenos e edificações atingiu o menor valor dos últimos 20 anos em 2021, último ano disponível.


Além disso, os investimentos da indústria de transformação estão encolhendo em relação ao total investido na economia brasileira. Ao longo da primeira década dos anos 2000, representavam 20,9% do total dos investimentos do país e, em 2021, essa participação caiu para 12,9%. Esse desempenho negativo significa perda de oportunidades para expansão do parque industrial.


A indústria de transformação é estratégica porque é o setor que mais investe em pesquisa, é o mais inovador e tem o maior multiplicador econômico. Ou seja, quando ela cresce, alavanca todo o PIB e irradia crescimento para outros segmentos. Desta forma, o baixo investimento no setor gera atraso tecnológico, perda de produtividade e de competitividade.


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O estudo da Fiesp mostra ainda que houve uma mudança estrutural na disposição dos investimentos, que estão cada vez mais concentrados na fabricação de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis. Entre 1996-2000, esse segmento representava cerca de 9% do investimento total da indústria de transformação. No período mais recente, 2017-2021, alcançou cerca de 1/3 do investimento total do setor.


FIESP
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“Ficar muito vinculado a setores cuja dinâmica de investimento está associada ao comportamento do preço internacional cria uma dependência extrema na estrutura produtiva que afeta, inclusive, excessivamente as receitas, dependendo do ciclo econômico”, diz Igor Rocha, economista-chefe da Fiesp, que coordenou o trabalho.


Nesse contexto, excluindo o setor de coque e derivados de petróleo, uma conclusão importante do estudo é que há uma lenta renovação do estoque de capital na indústria de transformação. Entre 1996 e 2014, o estoque de capital do setor registrou um crescimento moderado, com aumento de 1,9% a.a., em média, devido a uma expansão dos investimentos mais acelerada. Porém, no período subsequente (2015-2021), houve queda, com variação negativa de cerca de 0,6% ao ano. A deterioração do estoque de capital acende um sinal de alerta, pois impacta negativamente a produtividade e a competitividade do país.


FIESP
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Para recolocar a indústria como motor de recuperação dos investimentos da economia brasileira, é preciso avançar com as reformas que beneficiem o ambiente de negócios, sobretudo a reforma tributária (com alíquota máxima do Imposto sobre Valor Agregado de 25%), melhorar as condições de financiamento e obtenção de crédito, além de capacitar a força de trabalho.


O potencial da indústria de transformação em termos de produtividade, geração de empregos de qualidade (maior formalização e remuneração), capacidade de difusão do progresso tecnológico e de multiplicar os efeitos entre as demais cadeias produtivas colocam o segmento como essencial para o desenvolvimento nacional. Por isso, é estratégico que o setor recupere o dinamismo do passado.


FIESP
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A deterioração do estoque de capital acende um sinal de alerta para o setor industrial. Esse processo tem levado a queda da produtividade e menor potencial de crescimento do setor. A volta do crescimento sustentado e acelerado da economia brasileira, perpassa pela retomada dos investimentos na indústria brasileira.

Consequências da desindustrialização


A desindustrialização é danosa para toda a economia brasileira, sobretudo devido à capacidade que o setor tem de multiplicar riquezas. A cada R$ 1,00 produzido na indústria de transformação, são gerados R$ 2,43 na economia como um todo. A título de comparação, na agricultura são gerados R$ 1,75 e nos setores de comércio e serviços, R$ 1,49. O setor industrial tem a capacidade de puxar o crescimento dos demais setores por possuir cadeias produtivas longas e ser o grande indutor de inovações da economia. Mesmo a revolução de telecomunicações, que afetou profundamente o setor de serviços, dependeu da criação de produtos industriais, como smartphones, sensores, torres de transmissão, entre outros.


A alta produtividade e a produção em larga escala da agropecuária nacional, deve-se também, em grande medida, aos insumos fornecidos pela indústria, tais como ferramentas, máquinas e equipamentos com grande conteúdo tecnológico; rações para animais; sementes, fertilizantes e defensivos.


CNI
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Principais causas da desindustrialização no Brasil


Como mencionado acima, a desindustrialização no Brasil é um processo que começou na década de 1980 e tem se intensificado nas últimas décadas.


As causas são complexas e multifacetadas e incluem:


Infraestrutura


As empresas dependem de uma infraestrutura adequada para operar com eficiência e competitividade, como sistemas de transporte, energia, comunicação, entre outros. No entanto, quando esses sistemas estão defasados, ineficientes ou mal conservados, as empresas enfrentam atrasos, custos adicionais e redução da qualidade do serviço, o que compromete sua competitividade e produtividade.


Por exemplo, empresas que dependem do transporte de mercadorias enfrentam problemas de congestionamento, falta de investimento em rodovias, ferrovias e portos, além de limitações nos sistemas de armazenamento e distribuição. Isso leva a atrasos nas entregas, redução da qualidade dos produtos e aumento dos custos, o que torna as empresas menos competitivas em relação a empresas de outros países.


Da mesma forma, a falta de investimentos em infraestrutura energética pode levar a cortes frequentes de energia elétrica, o que pode interromper as operações das empresas e prejudicar sua produção.


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Custo Brasil


O "custo Brasil" é uma expressão usada para descrever o conjunto de fatores que tornam os custos de produção no Brasil mais elevados em relação a outros países, o que afeta negativamente a competitividade das empresas e pode levar à desindustrialização.


Entre os fatores que contribuem para o "custo Brasil" estão: alta carga tributária, burocracia excessiva, juros elevados, infraestrutura precária, falta de investimento em educação e tecnologia, entre outros.


Esses fatores elevam os custos das empresas, tornando-as menos competitivas em relação a empresas de outros países, o que pode levar à redução da produção industrial e até mesmo à desindustrialização.


Por exemplo, a alta carga tributária no Brasil aumenta o preço dos produtos, tornando-os menos competitivos no mercado globalizado. A burocracia excessiva e a falta de agilidade nos processos administrativos também aumentam os custos das empresas, tornando-as menos competitivas. Além disso, os juros elevados dificultam o acesso ao crédito e aumentam os custos financeiros das empresas.


Taxa de Juros


A taxa de juros no Brasil é uma das mais altas do mundo. Isso torna o investimento em novas tecnologias e equipamentos mais caro, reduzindo a competitividade da indústria nacional. Além disso, a alta taxa de juros incentiva a especulação financeira em detrimento do investimento produtivo.


Falta de Investimento em Pesquisa e Desenvolvimento


O investimento em inovação é fundamental para a competitividade da indústria, pois permite a criação de produtos mais avançados e a redução de custos de produção. A falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento reduz a capacidade da indústria nacional de competir com produtos mais avançados produzidos em outros países.


Além disso, o Brasil também tem apresentado um desempenho ruim em rankings globais de inovação e competitividade. Segundo o Índice Global de Inovação 2021, elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o Brasil ocupa apenas a 62ª posição entre os 132 países avaliados. Já no Índice Global de Competitividade 2021, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa a 71ª posição entre 141 países avaliados.


Mão de obra


Com a globalização, as empresas brasileiras passaram a enfrentar uma concorrência cada vez maior de empresas estrangeiras, muitas vezes com tecnologia mais avançada e mão de obra mais qualificada. Para competir nesse cenário, é necessário que as empresas brasileiras também invistam em tecnologia e qualificação da mão de obra, para produzir bens de alta qualidade a preços competitivos.


No entanto, muitas empresas brasileiras não investem o suficiente em qualificação da mão de obra, o que leva a uma baixa produtividade e qualidade dos produtos, tornando-se menos atraentes para os consumidores. Além disso, a falta de qualificação dificulta a adoção de novas tecnologias e métodos de produção, limitando a capacidade de inovação das empresas.


Sete passos para reverter o processo de desindustrialização no Brasil


O processo de industrialização é fundamental para o desenvolvimento econômico de um país, porém, há desafios a serem enfrentados. Algumas soluções que poderiam contribuir para reverter a desindustrialização no Brasil são:


  1. Reforma tributária: A implementação de uma reforma tributária simplificada e justa é essencial para a competitividade das empresas. Um sistema tributário complexo, com impostos elevados e inúmeras obrigações fiscais, dificulta o crescimento da indústria. Além disso, a reforma tributária poderia estimular a inovação e a produtividade, pois a redução dos impostos pode significar mais recursos para investir em tecnologias avançadas e capacitação da mão de obra.

  2. Investimento em tecnologias como a indústria 4.0: A adoção de tecnologias de ponta pode tornar a indústria mais competitiva e produtiva, além de aumentar a qualidade dos produtos e serviços oferecidos. A indústria 4.0, que envolve automação, robótica, inteligência artificial e internet das coisas, pode ser uma boa oportunidade para a indústria brasileira se modernizar.

  3. Capacitação da mão de obra: A capacitação da mão de obra é fundamental para a competitividade da indústria. Investir em treinamentos, programas de aprendizagem e incentivos para o desenvolvimento de habilidades técnicas pode ajudar a qualificar a força de trabalho brasileira.

  4. Parcerias com startups: As startups têm se destacado como um importante agente de inovação e transformação digital. A indústria pode se beneficiar da colaboração com startups para aprimorar processos, criar novos produtos e serviços, além de desenvolver soluções inovadoras para os desafios do setor.

  5. Ambiente de negócios seguro para atrair investimentos externos: O Brasil precisa melhorar o seu ambiente de negócios para atrair investimentos estrangeiros. Para isso, é necessário estabilidade jurídica, segurança institucional, transparência e previsibilidade nas regras do jogo.

  6. Linhas de crédito: As empresas precisam de acesso a linhas de crédito para investir em novas tecnologias, equipamentos e capacitação da mão de obra. Por isso, é importante que o governo e as instituições financeiras criem programas de financiamento que atendam às necessidades das empresas.

  7. Ambiente político: Por fim, é fundamental que o ambiente político seja favorável ao desenvolvimento da indústria. Políticas públicas claras e consistentes, com metas definidas e ações concretas para atingi-las, podem estimular a indústria brasileira a se desenvolver e se tornar mais competitiva.


Conclusão


A desindustrialização é um problema que afeta a economia brasileira há décadas, mas é possível reverter essa tendência com a implementação de políticas públicas adequadas e investimento em tecnologia e inovação.


A indústria 4.0 pode ser uma importante aliada na retomada da competitividade da indústria brasileira, permitindo a produção de produtos mais avançados, personalizados e sustentáveis.


É necessário que o governo, as empresas e as instituições de pesquisa e ensino trabalhem em conjunto para implementar as soluções necessárias e tornar a indústria brasileira mais competitiva em nível global.


A adoção da indústria 4.0 pode ser um importante passo nesse sentido, mas é preciso investir em educação e em políticas públicas adequadas para garantir que a tecnologia esteja acessível a todas as empresas, independentemente de seu porte ou setor de atuação.


A indústria brasileira tem potencial para ser uma das mais competitivas do mundo, mas é preciso trabalhar para superar os desafios e aproveitar as oportunidades que surgem com a transformação digital da indústria.


Com o investimento adequado e a implementação de políticas públicas eficazes, é possível tornar o Brasil um protagonista no cenário mundial da indústria 4.0.


Parte extraído via Agência Indusnet Fiesp


Rodrigo Portes

Por: Rodrigo Portes

Diretor de Vendas | Diretor Comercial | Gerente Nacional de Vendas | Gerente de Vendas Sênior | Mentor | Palestrante | Autor | Transformação Digital | Indústria 4.0

Fonte: Linkedin Rodrigo Portes - BR4.0

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